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JARDIM DA CASA HIGIENÓPOLIS

São Paulo, SP

texto Isabel Duprat

 

Este casarão permeava minha memória, era meu conhecido desde minha adolescência. Sempre que passávamos ali, naquela esquina da Avenida Higienópolis com a Rua Albuquerque Lins — muitas vezes a caminho do Colégio Rio Branco, onde eu estudava no curso científico — meu pai contava sobre sua relação com esta casa. Contava ter passado algumas tardes ali na infância, naquele palacete de muitos cômodos, jardim grande e inúmeras histórias. Havia, afinal, um laço de família: tia Cecília, filha de Nhô Nhô Magalhães, casou-se com o irmão de meu avô, Ângelo Pedreira Duprat. Ela e o marido moravam no Rio de Janeiro, em uma linda casa no bairro das Laranjeiras, com um jardim projetado por Burle Marx na década de 50. Foi essa ligação familiar que levou meu pai, ainda menino, a visitar algumas vezes o casarão de Higienópolis.

 

Mais tarde, quando tia Cecília ficou viúva e veio morar em São Paulo, nossa proximidade aumentou. Ela gostava muito de meus pais e tivemos a sorte de conviver com ela por muito tempo. Lembro dela com muito carinho. Era uma pessoa adorável, extremamente interessante, que deixou lembranças muito queridas.

HISTÓRIA DO CASARÃO

 

Carlos Leôncio de Magalhães, ou Nhô Nhô Magalhães, como era conhecido, foi uma figura estrelada da sociedade e da política em sua época. Empreendedor e visionário, fez fortuna como cafeicultor, empresário e banqueiro. Dono de vastas propriedades no oeste paulista, destacou-se pela habilidade nos negócios e pela visão de futuro. Vendeu a Fazenda Cambuy — com milhares de pés de café em Matão — pouco antes da quebra da Bolsa de Nova York em 1929, e diversificou sua produção para cana-de-açúcar e gado.

Em 1927, com o desejo de construir um palacete urbano no bairro de Higienópolis — já então abrigando mansões da elite paulistana — Nhô Nhô encomendou o projeto ao escritório Siciliano & Silva. A ideia era ter uma residência para festas e encontros sociais, já que a família residia principalmente nas fazendas. O projeto ficou pronto em 1929 e, no ano seguinte, iniciou-se a construção, que durou cerca de 6 anos. A casa refletiria a riqueza dos barões do café, que iam se estabelecendo no que viria a ser um dos bairros mais nobres de São Paulo.

Nhô Nhô faleceu prematuramente em 1931, apenas um ano após o início das obras. Coube à sua esposa, Ernestina, concluir a construção e, em 1937 mudou-se para o casarão com cinco dos filhos solteiros, onde viveram por cerca de nove anos.

A casa foi construída com uma mistura de estilos. Tinha aproximadamente 3.000 m² de área construída, mais de 40 cômodos, incluindo um pequeno teatro no subsolo, uma capela inspirada no Mosteiro dos Jerônimos, de Lisboa, vitrais belgas e mosaicos de vidro de Murano.

Tombado desde 1994 pelo CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo) e pelo DHP/CONPRESP (Conselho de Preservação do Município de São Paulo), o imóvel foi vendido para o Governo do Estado de São Paulo na década de 70, ocupado pela sede da Secretaria de Segurança Pública, e depois abrigou uma divisão da Polícia Militar, a DAS (Divisão Anti-Sequestro). Em 2005, o grupo que administra o Shopping Higienópolis comprou o imóvel em leilão, através de licitação, com a intenção de restaurar o conjunto e aproveitar parte do terreno como área de expansão do estabelecimento comercial.

O PROCESSO

Fui convidada pelo grupo Iguatemi em 2017 para participar do restauro do casarão. Na primeira visita que fiz, encontrei um jardim largado ao tempo, sombrio e triste, e imediatamente fiquei feliz com a missão de devolver-lhe a vida. Todas as lembranças acordaram.

O projeto de paisagismo teve a missão de recuperar as áreas externas que circundam o palacete, através de seus jardins, estares, passeios, escadas, amplos terraços e o belvedere, assim como, todo o estudo de circulação - de serviço, cargas, carros e pedestres – e acessibilidade, estabelecendo a forma como este conjunto se relacionaria harmoniosamente com a rua e o bairro, bem como com o Shopping Higienópolis através do boulevard. Uma residência​​ foi adaptada para um uso diferente: eventos e museu, uma nova função. 

Os pisos externos foram recuperados. Em uma área do jardim que havia sido transformada em estacionamento na época em que o casarão abrigava a Secretaria de Segurança Pública, os pisos foram recuperados ou refeitos com tijolos iguais aos originais pelo Estúdio Sarasá, responsável pelo restauro do casarão. Os pisos das escadas e os de pedra portuguesa foram também recuperados. 

SITUAÇÃO ANTERIOR

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Encontramos uma vegetação constituída de muitas árvores envolvendo o casarão. Não havia registros da vegetação arbustiva e de forração como eram à época.

As árvores existentes foram tratadas e receberam poda e tratamento fitossanitário. Foram acrescentados alguns exemplares, como seis mirindibas (Lafoensia glyptocarpa), sete aldragos (Pterocarpus violaceous) e trinta e uma grumixamas (Eugenia brasiliensis), plantados também na divisa do prédio vizinho proporcionando mais privacidade ao casarão. Esse conjunto arbóreo expressivo, formado pelas árvores já existentes e as introduzidas, assumem o protagonismo do jardim.

 

A vegetação foi estruturada em duas camadas: as árvores, e sob elas, à sombra, um tapete de forrações em diferentes tons de verde, trazendo um pouco de luz para o jardim.

 

Alguns exemplares de palmeiras foram também adicionados: Pinanga coronata, Areca-bambu, Palmeira-ráfia.

 

Para as forrações especifiquei plantas de uso frequente nos casarões daquela época em São Paulo. Selecionamos, baseados em relatos, espécies de forrações como hera, grama preta, violeta, Aspidistra elatior e algumas folhagens, às quais acrescentamos outras plantas com similar forma, como Curculigo, Monstera deliciosa, samambaia paulistinha, renda portuguesa e Liriope 'Variegata', iluminando o jardim antes sombrio, em ondas, acompanhando o desenho dos pisos para se ter uma bela visão do terraço/belvedere.

 

As flores, como as coloridas petúnias, que embelezavam potes em pontos de destaque no jardim, fariam parte novamente do conjunto, assim como as jabuticabeiras que povoavam o antigo pomar, que hoje é em parte ocupado pelo Shopping Higienópolis,  e que não podiam faltar nos jardins da época, seriam trazidas para os terraços.

Os muros para a rua Albuquerque Lins receberam cerca viva de murta, de forma a dar a mesma estrutura da antiga parede de fícus, hoje crescidos e transformados em árvores.

Como registro histórico, o resgate destes espaços que têm na sua origem a vocação do convívio, nos traz a memória estética e viva da burguesia cafeeira do Estado de São Paulo nos anos 20 e 30, e seu entendimento do jardim como “lugar”.

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Projeto executivo de vegetação
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Vegetação
Vegetação
Área 3 - Vegetação
Área 4 - Vegetação
Verdes - formas e texturas

JARDINS - MAKING OF

Início do projeto 2017

Término 2020

Área de intervenção (pisos externos + canteiros): 1770m²

Em publicações:

A volta do palacete, de Pedro Carvalho. Veja São Paulo, 15 de junho de 2022

© Isabel Duprat

Arquitetura Paisagística |  Isabel Duprat Arquitetura Paisagística

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