RESIDÊNCIA DOHA

Doha, Catar

Texto Isabel Duprat

Aquarelas Luiz Paulo Baravelli

 

A luz da paisagem causou uma grande impressão em mim. A areia quase branca muito fina como um talco em suspensão se transforma em um véu que com o efeito do vento deixa a paisagem diáfana e ligeiramente amarelada pela luz do sol intenso e constante. A sensação agravada pelo calor é desconcertante. A areia penetra na pele e se enrosca no cabelo. Tive vontade de proteger a cabeça e o pescoço. O lenço quadrado que gosto de sempre trazer comigo, me deixou mais confortável.

Pensar um jardim em um lugar que já na chegada nos parece tão indecifrável foi um processo instigante.

O projeto de paisagismo para uma residência projetada por Bernardes & Jacobsen no deserto a beira mar deveria trazer sobretudo conforto físico para os futuros moradores. Um viver ao ar livre menos abrasivo.

O que buscamos como princípio no projeto foi a criação de espaços fluidos integrados com os espaços internos e que trouxessem à arquitetura e as áreas externas uma sensação de unidade e complementação. O próprio partido arquitetônico dá uma dimensão essencial aos jardins colocando-os como importantes elementos articuladores entre os espaços internos e externos. Como primeiro elemento a ser percebido temos o eixo de entrada marcado por grupos de espetaculares palmeiras fênix adensadas e distribuídas irregularmente em canteiros lineares: um contraponto entre a formalidade e a organicidade. À esquerda a água inunda a área entre os eixos dos blocos da arquitetura com um grande pátio fluido. Uma pequena ilha no centro é protegida por vegetação mais exuberante para aplacar um pouco a luz chapada do sol inclemente. Sentir-se bem no aconchego do oásis.

Os pisos e as águas do espelho d’água são tecidos como uma grande tapeçaria com canteiros entremeados de flores coloridas e arbustos, criando cheios e vazios, altos e baixos, lugares descortinados ou aconchegados com pequenos estares marcando compassos ora formais ora orgânicos.

 

Permeando todo o envoltório do terreno foi desenhado um passeio que permite desfrutar o jardim por inteiro, com arvoretas entremeando a cobertura vegetal de grama e forrações para minimizar o efeito da areia em suspenção.

Foram criadas condições para se conceber um jardim interno de vegetação exuberante com uma atmosfera tropical em contraponto às particulares características dos jardins externos.

Na ocasião do desenvolvimento do projeto, dada a pouca variedade de espécies arbóreas e arbustivas nativas no Catar e indisponibilidade destas espécies em viveiros, optamos pelo uso de plantas exóticas que se adaptassem às difíceis condições climáticas. 

Área de intervenção 80.000 m² 

Projeto  2010

Casa Tropical: Houses by Jacobsen Arquitetura. Philip Jodidio, Thames & Hudson, 2020