BANKBOSTON SP

São Paulo, SP

 

 

 

 

Texto Isabel Duprat

Fazia 25 graus negativos em Chicago. Era fim de janeiro de 1999. Nunca havia experimentado um frio como este. Na chegada à cidade nos foi organizado um passeio ao Oak Park, e vivenciei a mágica sensação de ver pela primeira vez a neve caindo, enquanto me maravilhava com as obras de Frank Lloyd Wright. Dia seguinte logo pela manhã haveria uma reunião com os clientes vindos de Boston, os arquitetos e o gerenciador na sede do escritório SOM - Skidmore, Owings and Merrill - na Michigan Avenue. O motivo desta viagem era o projeto da futura sede do BankBoston em São Paulo. Seria uma concorrência entre os profissionais paisagistas que haviam sido previamente selecionados em visita ao Brasil. Não seria uma competição de ideias, nem de conceito de projeto, mas uma conversa com uma pasta de fotos e desenhos de trabalhos que eu havia feito até então. O frio severo e o vento cortante vindo do lago Michigan, daqueles que faz lacrimejar os olhos, distraíram a ansiedade do que estava por vir na pequena caminhada do hotel ao escritório. A entrevista foi boa, mais leve e agradável do que poderia imaginar. Perguntas certeiras feitas ao redor de uma mesa com 14 homens. Tudo correu muito bem, fui escolhida para o trabalho. Esta veio a ser uma experiência única em toda a minha vida profissional de um projeto corporativo, onde o paisagismo foi respeitado e valorizado em todas as suas etapas, desde o projeto até a sua execução, assim como sempre deveria ser.

Mais dois dias em Chicago a pedido dos clientes para os arquitetos no escritório, em uma sala só para mim, tendo à frente uma instigante paisagem em preto e branco com o Grand Park expressando o inverno rigoroso. Lápis de cor, grafite, papel manteiga muito fino em rolinhos de vários tamanhos que até hoje gosto de usar, suco de laranja, café, toda a liberdade e a tarefa de criar o embrião das áreas externas do edifício. Assim foi. Destes desenhos iniciais se concretizou o projeto. Isto nem sempre acontece, mas neste caso foi um caminho natural.

De volta ao Brasil, mãos à obra. Durante dois anos desenvolvemos o projeto com uma equipe de consultores da maior qualidade, todo o apoio dos clientes, uma respeitosa e gratificante relação de trabalho com os arquitetos, onde nos respectivos territórios cada um dava a última palavra.

A execução da obra civil das áreas externas foi acompanhada pelo nosso escritório e a execução de toda a vegetação foi realizada por nós durante um ano e meio.

A intenção dos clientes era ter um parque para o lazer dos funcionários e isto me deu a oportunidade de fazer das árvores as protagonistas. Tenho orgulho de ter tido o pioneirismo de há 20 anos atrás trazer para o mundo corporativo a beleza de árvores como jequitibás, sapucaias, jatobás, pau brasil, verdadeiras joias das nossas matas.  Esta não era uma prática até então, e hoje vejo que contribui para disseminá-la. Era muito mais difícil e quase impossível conseguir árvores boas, com grande porte, o que nos fez garimpá-las dois anos uma a uma. Muitas viagens de buscas com a ajuda incansável do sr. Walter Doering.

Considerando que grande parte do jardim é sobre lajes, encontrar terra boa em quantidade suficiente para enchê-las seria uma enorme dificuldade, que foi resolvida com a oportunidade que não podia ser perdida da escavação do subsolo de um prédio que estava sendo construído na avenida Paulista. Temos ali terra de topo de morro de muito boa qualidade. Esta terra foi armazenada no terreno vizinho ao site da obra e preparada para ser colocada nas lajes, à medida que a obra nos liberava. E assim foi, um processo longo de preparo e de execução dos jardins.

​Em uma atitude respeitável de urbanidade os jardins se estendem ao Hotel Hyatt. A simultaneidade das obras da sede do banco e do hotel, fez com que durante o projeto do Hyatt tirasse partido da vista do jardim, já que a ideia de explorar o rio Pinheiros se desvaneceu quando tiveram contato com a sua incompreensível insalubridade. Desenhei a ligação viabilizando o acesso integrado aos dois edifícios, liberando o jardim também aos hóspedes do hotel.

Fico grata de ter participado deste processo onde experimentei o bem fazer.

 

 

O PROJETO 

Implantado numa área de aproximadamente de 10.000 m², os jardins da nova sede do BankBoston em São Paulo foram concebidos como um bosque de arborização expressiva, com o propósito de garantir um espaço de bem estar aos funcionários.

O projeto busca nas suas linhas integrar-se com a arquitetura do edifício através do traçado de caminhos, da disposição das praças e estares, das árvores e formas da água que abraçam o acesso principal, refletindo e mimetizando prédio e o jardim.

O espelho d’água, como que desenhando as raízes do edifício, percorre pequenas cascatas até um lago com peixes e plantas aquáticas.  Esse trajeto proporciona uma variedade de sons delicados, não ao acaso. Do outro lado, junto ao auditório, o espelho se transforma em uma lâmina d’água preta com grandes bancos de pedra a sua volta, sendo o pano de fundo da orquestra quando as janelas ficam abertas.

Os caminhos e estares foram pensados de forma que diferentes sensações sejam experimentadas ao percorrer o jardim, quer na proximidade ou pelo som da água, quer pelas diferentes estruturas de vegetação, proporcionando aconchego, sombra e descanso sob o sol.

Duas praças dispostas em diagonal, a da cafeteria e a das magnólias amarelas, oferecem a possibilidade de um estar coletivo com diferentes apropriações e opções de acesso, como mesas de xadrez e gamão de granito, bancos, cafés, sombra e sol. A pérgola florida, com luz filtrada e bancos à beira do curso d’água, a ilha das jabuticabeiras envolta por cascatinhas, o lago com carpas e a praça dos paus-ferros propiciam recolhimento, um uso mais reservado.

A escolha dos materiais de piso foi feita procurando compatibilizar os materiais utilizados no edifício, caracterizando os diferentes usos: pedrisco nos passeios mais demorados e estares; e mosaico português nos percursos mais rápidos. O acesso do automóvel se desenvolve de forma orgânica e foi localizado bem à direita do terreno de forma a se integrar ao jardim, sem fragmentar a área verde. O mosaico português de cor ocre foi reservado para a circulação de pedestres e granito de tons cinzas para o automóvel, diminuindo o impacto visual do drive e tornando confortável seu uso compartilhado com os pedestres.

Realizado em sua maior parte sobre laje com o plantio de árvores e palmeiras de porte, muitas delas com mais de 10 metros de altura, o jardim foi viabilizado por um projeto estrutural que atendeu as necessidades de volumes, e espessura de terra adequada a cada espécie selecionada.

O jardim teve o terreno desenhado com relevos maiores e menores e formas sinuosas no propósito de conduzir o interesse estético e o uso dos jardins, criando aberturas e fechamentos onde convivem o desejado e o imprevisto.

As espécies vegetais selecionadas são em grande parte brasileiras. As exóticas utilizadas foram escolhidas por terem algumas particularidades bastante expressivas e por se adaptarem às difíceis condições ambientais da cidade de São Paulo.

A vegetação apresenta também um caráter educativo ao resgatar as espécies nativas de nossas matas que praticamente desapareceram de nosso repertório vegetal. As árvores como o Jatobá, a Seringueira, o Jequitibá e as Sapucaias foram tratadas pelo projeto como elementos de grande importância e adquiriram destaque ao serem plantadas isoladamente.

O Pau-brasil, como espécie arbórea de grande significado nacional, que deu o nome ao nosso país e encontra-se em extinção, foi homenageado ao serem plantados em grupo na ilha central localizada em frente ao acesso principal ao edifício.

Diferentes conjuntos de árvores caracterizam e identificam distintos setores do projeto como as córdias da Praça da Cafeteria, as magnólias amarelas da Praça do Auditório, o bosque das jabuticabeiras, as guarirobas junto ao Hyatt ou o bosque de lofanteras ao longo da passarela de acesso principal.

O jambo, a amércia e os ipês foram selecionados por terem uma floração espetacular; enquanto, o jacarandá, além da floração, pela generosidade de sua copa. No critério de seleção das espécies foi assegurada a alternância da floração das árvores ao longo do ano todo, de modo a reforçar o caráter de mutação da vegetação.

Árvores de escultóricas foram especificadas no projeto, tais como a paineira vermelha, a eritrina e o jasmim-manga; outras, além da floração, foram escolhidas pela beleza de seu tronco, como os resedás, melaleucas e pau-ferro.

As árvores frutíferas: pitanga, grumixama, goiaba, jambo, jabuticabeiras e cerejeiras junto às áreas de estar ao longo do riacho são atrativos para os pássaros.

Os arbustos e forrações criam volumes e planos de cores e texturas diferenciados de forma a serem percebidos durante o percurso pelo jardim. Algumas espécies como a Bauhinia galpinii, Quisqualis indica, a Strelitzia reginae, possuem floração generosa e especial. A gardênia e os jasmins exalam perfume. Outras, como os capins com tonalidades diversas, trazem leveza e luminosidade. Sanseveria cylindrica, Cycas revoluta e Zâmia pumila, pelas formas esculturais.

Com este projeto os jardins do BankBoston, oferece à cidade de São Paulo um novo olhar sobre os espaços urbanos, privilegiando a qualidade de vida de seus habitantes.

- este texto é parte do memorial descritivo do projeto. Ano 2000

Área de intervenção 10.000 m²

Projeto e execução 1999 - 2002

Facility Ano 5 n 25 2002

Natureza 185 ano 16 n5  - junho de 2003

Projeto Design 269 julho 2002

Finestra ano 7 n29 2002

New Brazilian Gardens - the legacy of Burle Marx. Roberto Silva, Thames & Hudson, 2014

Women Garden Designers 1900 to the present. Kristina Taylor, Garden Art Press, 2015

AD Brazil - reestructuring the urban. Hattie Hartman, Academy Press, 2016

Adrian Smith: Toward a sustainable future. Images Publishing Dist Ac, 2015